Introdução

Em 1937 o economista Ronald Coase publicou o artigo A Natureza da Firma: origem, evolução e desenvolvimento, onde afirma que as organizações surgem para atuar nos mercados com o objetivo de diminuir os custos de transação (custos de busca e aquisição, de contratação e controle, de coordenação e de confiança)1. Na economia industrial, onde busca-se a produção em larga escala a fim de obter-se o menor custo marginal possível, faz sentido grandes estruturas hierárquicas e cadeias de comando e controle na busca do máximo de eficiência possível por meio da especialização, planejamento da produção, tarefas encadeadas e controles de qualidade.

 

Numa economia baseada no petróleo e na comunicação pela telefonia fixa, que exigem altos investimentos de instalação, produção e manutenção, grandes gigantes nasceram e cresceram sobre uma estrutura hierárquica, centralizada numa cadeia de comando e controle, contabilizando os ganhos da centralização, da concentração e da especialização2. Coase porém advertia que organizações expandem-se até o ponto em que a economia obtida for superior ao custo de se realizar a mesma transação no mercado, quando sua existência deixa de fazer sentido.

 

As novas tecnologias da informação e comunicação móvel, principalmente a Internet, tem atuado fortemente nessa equação e colocado as Organizações de Modelo Industrial (OMI) em cheque, uma vez que permitem modelos distribuídos de organização, mostrando que a facilidade de conexão e acesso a informações tem um efeito devastador nos custos de transação, permitindo que a busca direta ao mercado seja feita com maior eficiência, velocidade, e eficiência que aquela feita por meio de uma “Firma”3.

 

Esse novo modelo de organização distribuída, deve ser construído sob um novo conjunto de princípios, opostos aos da OIM, sob um novo paradigma que priorize também a eficácia e não só a eficiência, sem hierarquia e funções pré-definidas, sem processos decisórios e seletivos, sem patrimônio ou fundos comuns administrados por uma equipe ou grupo. Uma organização aberta e inclusiva, transparente e que segue um modelo exponencial e abundante, com foco na evolução bem como na sobrevivência, uma organização que prospera.

 

 

PRINCÍPIOS

 

Integra sobrevivência e evolução;

A prosperidade acontece quando sobrevivência e evolução se integram. Não é possível evoluir se não se está vivo e não tem sentido algum estar vivo se não for para evoluir.

 

As Organizações do Modelo Industrial (OMI) funcionam administradas por cadeias de comando e controle com foco na sobrevivência. Seguem fazendo aquilo que já fazem procurando fazer cada vez melhor. São orientadas pela eficiência: cada vez mais rápido, mais barato, com maior volume, em menor tempo e com menos defeitos em relação ao padrão.

 

A alta eficiência traz grande capacidade de sobrevivência. Ao fazer melhor adquirimos a capacidade de continuar existindo da mesma forma, sendo igual. Porém, a única constante no universo é a transformação e mesmo que a organização não queira mudar, o universo muda.

Muda o ambiente e a sociedade muda. Se a organização não consegue mudar, por só se preocupar em fazer o igual melhor, corre o risco de não se adaptar às mudanças. Ficando obsoleta e morre de sua enorme capacidade de sobreviver. A organização que pretende ser próspera deve integrar à sua capacidade de sobreviver a de evoluir. Evoluir é se adaptar, mudar.

 

É necessário ser eficaz além de ser eficiente. Enquanto ser eficiente é fazer a mesma coisa melhor, ser eficaz é fazer a melhor coisa. É ter a capacidade de ir deixando de fazer aquilo que já se sabe fazer muito bem para começar a fazer aquilo que não se faz tão bem ainda mas que passou a ser necessário. Ser eficaz é a capacidade de se adaptar às novas necessidades do ambiente em que estamos contidos, da sociedade ao universo.

 

 

Os iniciadores só existem no inicio;

As cadeias de comando e controle das OMI são instituídas por seus fundadores que, em muitas ocasiões, compõem a hierarquia de comando e controle. Essa estrutura estimula nos integrantes das OMI um contínuo comportamento de dependente aprovação, pois precisam submeter as suas propostas a uma ou mais instâncias superiores que em teoria sabem mais pela simples posição hierárquica.

 

Essa ideia de alguém que sabe mais ou até, às vezes, sabe tudo é extremamente desempoderante e inibe a exploração do campo de possibilidades e das iniciativas transformadoras que possibilitariam a evolução da OMI. O centro decisor, tentando manter a sua capacidade de sobreviver como igual, bloqueia a habilidade das bordas de interagir com o ambiente, perceber as suas constantes mudanças e se adaptar.

 

Diz o Osho:

 “ Não é que tenho dúvidas se Deus existe.

   Tenho certeza de que não existe.

   Porque graças a Deus…Ele se retirou.

   Sabia que o universo não evoluiria se mantivesse a sua presença.

   Nada pode evoluir na presença de uma entidade superior que sabe tudo.”

 

A evolução da organização depende da autonomia das bordas e, para ser próspera depende de bordas empoderadas, que devem ser livres para experienciar intuitivamente o campo de possibilidades que está além do perímetro da organização. Não é a toa que a palavra experiência quer dizer ex-perímetro.

 

As bordas tem de se responsabilizar por si mesmas. Ter responsabilidade perante as necessidades. Responder com as próprias habilidades às necessidades da organização e para isso não podem ter o recurso de olhar para um centro decisor e perguntar o que fazer. Ao olhar para o centro deve-se ver o vazio para que possam perceber que o único caminho evolutivo é olhar para si mesmos.

 

A Organização Próspera não tem ninguém no centro pois não há centro decisor, só bordas que decidem sobre si mesmas. Por outro lado, ela não passa a existir do nada. Toda a matéria resulta da pressão exercida na energia e assim acontece quando queremos materializar algo e, por isso, é necessário exercer pressão na energia para que a organização se materialize e passe a existir.

 

A existência da organização depende de alguém(ns) que se comprometa(m) em pressionar a energia para que ela se inicie. Uma dependência que é necessária somente no início e, por isso, na Organização Próspera, não há fundadores para instituir uma cadeia de comando e controle, só iniciadores que se responsabilizam por seu início, estabelecendo arbitrariamente o conjunto de princípios e regras do modelo de negócio a serem seguidos.

 

A presença dos iniciadores não se faz mais necessária após a materialização da organização. Eles devem então “morrer” como iniciadores para renascer como apenas mais um integrante da organização. Assim ficam livres para conseguir aproveitar os benefícios da organização que iniciaram.

 

 

Os criadores instituem as regras da criação;

As regras de funcionamento de uma organização próspera são instituídas no momento de sua criação arbitrariamente por seus iniciadores. Não há discussão ou negociação coletiva para se criar um consenso sobre qual é a regra da organização. Ela já é daquele jeito desde o inicio. Regra não tem nada a ver com procedimentos ou processos. Esses mudam no tempo em função das necessidades que se transformam. A regra não muda. É a lei. É o Dharma.  “Dharma” é uma palavra do antigo sânscrito que significa literalmente “aquilo que sustenta, que mantém“. É a força régia da existência, a essência verdadeira do que existe, ou a própria Verdade. É como a lei da gravidade que sustenta o universo e por isso não muda. Foi instituída no inicio do universo e pronto. É assim que funciona. A organização próspera funciona ou não existe. É eficaz e eficácia é a prova da verdade.

 

 

É inclusiva, não existe NÓS e ELES. Só existe um NÓS.

A evolução é a capacidade de se adaptar e, para isso, é necessário se reinventar. Para evoluir é preciso ter a capacidade de criar sistematicamente. Um sistema criativo só se instala com a diversidade pois sem ela não há criatividade. Para um sistema ser diverso é necessário a integração contínua de novas pessoas, é necessário incluir novos nós na malha de conexões.

A inclusão contínua abunda a malha de diversidade e, com a livre interação mantida, sustenta-se o ambiente co-criativo. A co-criação abundante que emerge da livre interação de nós diversificados sustenta a evolução, pois para evoluir é necessário interagir com o diverso, com o diferente. Isso não quer dizer que há a necessidade de concordar com o diferente, não é uma questão de obter consenso ou ser igual.

 

A igualdade só seria um objetivo se a necessidade fosse apenas a de se manter igual, mas não é, é preciso desenvolver a capacidade de se transformar e a interação com o diverso é que possibilita isso. A evolução exige desenvolver a capacidade de interagir com o outro divergindo dele. É a capacidade de incluir o outro com o mesmo direito de existência que concedemos a nós.

 

A evolução depende de percebermos que é na divergência do outro que encontramos a nossa capacidade de evoluir, de se transformar. É no outro que nos refletimos pois, a partir de sua expressão, nos reconhecemos. Percebemos que o outro, na verdade, não é tão diferente assim, que não é um ELE desconhecido, é só mais um NÓ igual a NÓS e que não não há um NÓS e ELES. Só há um NÓS.

 

Essa percepção nos liberta para incluir a diversidade que possibilita a evolução, removendo os rótulos e deslinearizando a interação, deixando de ter uma linha que conecta um EU a um ELE, derrubando a ilusão da separação e integrando todos os nós em um único NÓS exponencial, que interage livremente e liberta a capacidade cognitiva do todo. É essa capacidade que emerge da livre interação co-criativa e abundante que permite a integração da evolução à capacidade de sobrevivência e materializa a organização próspera.

 

A Organização Próspera tem movimento em sua hierarquia. Hierarquia não quer dizer cadeia de comando e controle. Quer dizer ordenamento e a instituição de uma cadeia de comando e controle é só uma das formas de se ordenar. Mas não é a única. Achar que hierarquia é somente a instituição de uma cadeia de comando e controle é uma confusão comum.

O ordenamento da Organização Próspera se dá na medida que o NÓS e ELES vai se tornando um único NÓS. Depois do início, os iniciadores deixam de existir como tal e se integram na malha como apenas mais um do NÓS.

 

O mesmo movimento se aplica aos papeis que estamos acostumados a atribuir previamente para as pessoas uma vez que, na Organização Próspera, não há papeis padrão, especialistas e nem especialidades. Não existe a separação das pessoas em categorias como, por exemplo, investidores, financiadores, clientes, fornecedores, trabalhadores, etc. Todos são seres humanos interagentes a partir da livre escolha em atender as necessidades da organização com a sua responsabilidade (responder com a própria habilidade), são os mesmos, desenvolvendo a sua individualidade única.

 

Assim não há nenhum tipo de NÓS e ELES, só há um NÓS.

 

 

Não há a tomada de decisões coletivas. Todas as decisões são individuais;

Na Organização Próspera não há nenhum tipo de centro que necessite de um processo de tomada de decisão coletiva: CNPJ, caixa central, fundos de reserva, orçamento, comitês de aprovação, patrimônio coletivo, comprometimento coletivo, patentes, manual de aplicação da marca ou propriedade coletiva. Não há nada que justifique a necessidade de algum tipo de tomada de decisão coletiva.

 

Em função disso a organização não precisa adotar procedimentos que parecem inclusivos mas, na verdade, são exclusivos e comprometem a evolução. Uma eleição pode parecer inclusiva pois convoca todos para votar mas, na verdade, é exclusiva pois só pode eleger um.

Na Organização Próspera não pode haver nenhum processo de exclusão pois isso compromete a diversidade do campo co-criativo que leva a evolução. Isso significa  que não poder haver processos seletivos, votações, consensos construídos, eleições, premiações, rankings ou avaliações. Nada que se justifique como ferramenta para a tomada de uma decisão coletiva única.

 

Na Organização Próspera, a tomada de decisão é 100% individual, construída na interação do NÓS e cada NÓ é autônomo para se auto responsabilizar. A Organização Próspera caracteriza-se não pela ausência de lideranças mas pela multiplicidade delas, uma vez que todos os NÓS são líderes de si mesmos. Os NÓS se auto atribuem a liderança de suas decisões.

 

O sistema se auto organiza pela livre movimentação dos NÓS que, interagindo entre sí, constroem sua reputação por meio da auto regulação.

 

 

Não há definição prévia de responsáveis. Todo Nó do Nós é um responsável por si mesmo e pelas necessidades da organização;

A Organização no Modelo Industrial organiza-se definindo previamente os responsáveis pelos problemas que imagina que vai ter. Ao fazer isso, limita-se ao conhecido e não desenvolvendo a capacidade de lidar com o desconhecido. Mantém um ambiente reprodutor de vícios que não explora o campo de possibilidades que fomenta a evolução.

 

Quando os responsáveis são definidos previamente ninguém mais pode se responsabilizar pela necessidade que emerge pois a responsabilidade é somente deles. Isso faz com que os problemas sejam endereçados sempre da mesma forma e impede a instalação do campo cocriativo que exploraria novas  soluções.

 

Quando não há responsáveis previamente definidos qualquer um pode se responsabilizar para atender as necessidades que emergem no presente. A organização ganha agilidade ao só se preocupar com aquilo que realmente acontece, com liberdade para perceber suas necessidades reais e responder a elas.

 

Responsabilidade não significa uma obrigação com o outro como as pessoas entendem usualmente. Responsabilidade é responder com a própria habilidade. E é necessário responder a que?

 

À necessidade que emerge na organização em que se esta contido. Não é responder às necessidades reprodutivas da linha de produção com o cumprimento das funções de um cargo padrão. É responder com a própria habilidade, de forma interagente e co-criativamente com o Nós, às necessidades da organização que emergem no presente. Não se trata de garantir o resultado esperado.

 

Não objetivar um resultado esperado não significa ter ausência de resultados pois em um processo de evolução nos deparamos com o resultado inesperado. Não definir os responsáveis previamente permite que todo o NÓS se auto responsabilize auto atribuindo-se a liderança de responder com a própria habilidade para atender as necessidades da organização criando um resultado inesperado.

 

 

Não há planejamento. Não há alinhamento para o futuro. Só há a sincronização no presente;

A definição de resultados esperados no futuro tira a capacidade da organização de reagir ao presente. Como não há figura central, na Organização Próspera, as metas não são coletivas. São individuais. As pessoas funcionam alimentando-se de expectativas que chamam de futuro enquanto orientam-se pelas experiências que estão na memória que chamam de passado. Porém, expectativas e memórias são acessíveis no presente e portanto a única coisa que realmente existe é o presente. É no agora que tudo acontece.

 

Todas as necessidades emergem na presença e portanto não faz sentido, em uma Organização Próspera, orientar-se por expectativas criadas que esperam um determinado resultado no futuro. É necessário, para ser próspero, estar conectado na presença com o meio e assim conseguir detectar as necessidades emergentes, mantendo a capacidade de se adaptar e evoluir em tempo real.

 

Não há alinhamento pois não há concordância nem a necessidade de convergência quando não existe um centro decisor, sendo a divergência, o estado normal da organização.

A percepção do todo emerge da livre interação divergente do NÓS, que não se alinha pois, por interagir exponencialmente, não se conecta por uma mesma linha. O NÓS emerge se sincronizando. Integra-se ao todo no processo de sincronização de que não acontece por concordância.

 

A sincronicidade se manifesta quando há uma base comum que é construída pelo mútuo reconhecimento do NÓS sobre a própria necessidade associada ao movimento que é alimentado pela livre e divergente interação. É necessário haver base comum e movimento para haver sincronicidade. A base comum associada ao movimento contínuo promove a sincronicidade da Organização que funciona atendendo às suas próprias necessidades no presente.

 

 

Não há troca, só distribuição;

Para se manter o campo de possibilidades em exploração contínua por meio da livre interação do NÓS que co-cria resultados inesperados que possibilitam a evolução é preciso eliminar a ideia de troca entre os NÓS. O NÓS deve ter condição de interagir livremente em fluxo, pois toda a especificação e quantificação de uma troca linearizam a relação e interrompem o fluxo do acoplamento estrutural que é o combustível da co-criação.

 

O problema acontece quando a linearidade das relações é reintroduzida pela ideia das trocas. São as situações onde um nó categoriza o outro nó como um cliente ou fornecedor, ou quando um nó espera receber algo em troca de alguma entrega feita a outro nó, ou se vê na posição de ganhar ou perder do outro nó em vez de ganhar ou perder em conjunto com o outro nó. Quando o nó se separa do NÓS e passa a ver o outro como um ELE, diferente de si mesmo, a linearidade é reintroduzida e perde-se a liberdade da interação que leva a evolução.

 

Na Organização Prospera não pode haver trocas pois elas impedem a evolução. Só pode haver distribuição. Esta distribuição não se dá por meio de recursos coletados por um centro decisor e sim pela simples ausência de um sistema de trocas.

 

Sem um centro distribuidor não há o que distribuir e é nesse momento que a distribuição acontece pois este é o estado natural das coisas. Na Organização de Modelo Industrial, nós mesmos somos os responsáveis por interromper a distribuição natural do universo quando introduzimos um sistema de trocas linear. Removendo-se esse sistema de trocas, desobstrui-se a interação faz-se com que as coisas fluam de forma distribuída.

 

Cada nó do NÓS é responsável por si mesmo e portanto é ele quem gera o seu próprio faturamento. A ausência de CNPJ ou Conta Bancária coletivos é substituída por CNPJ´s, CPF´s e Contas Bancárias individuais, pertencentes a cada NÓ do NÓS.

 

Integrado e apoiado pelos recursos ( de conhecimento, de tecnologia, de capital social, financeiros etc.) que fluem de forma distribuída pelo NÓS da Organização Próspera cada NÓ responde com a sua habilidade para as necessidades da sociedade e realiza o seu faturamento individual. A distribuição do faturamento gerado é de decisão livre e autônoma entre NÓ que faturou e os NÓS que colaboraram com ele que o faturamento fosse realizado. As atitudes que emergem dessa relação construirão a reputação de cada NÓ para todo o NÓS.

 

Cada NÓ é responsável pela sua reputação perante o NÓS, pois não há avaliação centralizada, só há a convivência que gera reputação de forma autônoma de todos os NÓ que integram o NÓS. Os faturamentos e as atitudes compõe o ambiente de reputação dos NÓS.

 

A implantação e manutenção desse ambiente é de responsabilidade dos próprios NÓS que no início era composto só pelos iniciadores mas que, na sequencia, se integraram como NÓS e trabalham pela expansão do sistema registrando seus faturamentos e atitudes nas plataformas de interação e transação desse ambiente comum.

 

 

Não acumula patrimônio. Só distribui acesso;

O acúmulo de patrimônio exigiria a constituição de algum centro decisor para administrar o patrimônio coletivo, criando a necessidade da instalação de processos decisórios exclusivos que, como já vimos, escasseariam o campo de possibilidades e comprometeriam a evolução.

A Organização Próspera não mantém patrimônio coletivo, não imobiliza. Só mobiliza, coloca em movimento, mantém o fluxo, distribui acesso para incluir e servir, sem julgamento, ética ou moral coletiva, pois cada um é o seu próprio juiz e a Organização só inclui e serve.

 

 

Não há Propriedade só responsabilidade;

Existem três tipos de bens: privados, públicos e comuns. Os privados são de propriedade da iniciativa privada, os públicos do estado e os comuns de ninguém. O bem comum não tem proprietários, só responsáveis pois, como o comum impacta a vida de todos mas não é de propriedade de ninguém, torna-se uma resultante inesperada da resposta que o NÓS dá com a sua habilidade para atender as necessidades comuns.

 

O comum emerge da responsabilidade do NÓS e a Organização Próspera como um bem comum, não é de propriedade de ninguém, nenhum de NÓS é dono da Organização Prospera porém todos NÓS somos responsáveis por ela.

 

 

Não há custos nem receitas mensais fixas, só o contínuo fluxo variável;

Como não há patrimônio acumulado, ativos coletivos nem cargos padrão não há despesas e custos de natureza fixa. Todo o fluxo financeiro flui de forma variável e é distribuído em tempo real.

 

 

 

ANEXO I

 

 

Usando o Blockchain e as Criptomoedas na Organização Próspera

O Blockchain é um livro de registros de transações (como um livro-razão contábil) distribuído, transparente e seguro que, ao longo de seus 8 anos de existência tem se mostrado a ferramenta ideal para atender ao novo modelo de Organização Próspera. Sua arquitetura e processos vão ao encontro das necessidades e princípios da OP. Auxiliam seus integrantes a enfrentar o condicionamento de adotar modelos industriais centralizados.

 

 

O Blockchain e os custos de transação

O impacto de uma tecnologia distribuída como o Blockchain nos custos de transação de uma organização é enorme. Os registros públicos e abertos reduzem os custos de busca, estabelecendo reputações baseadas em transações realizadas. Os Contratos Inteligentes reduzem as estruturas de contratação e controle e a inexistência de intermediários reduz os custos de colaboração. A confiabilidade, inviolabilidade e integridade do Blockchain garantem a segurança e confiança do sistema minimizando estes custos também4.

 

 

O Blockchain e a Organização Próspera

Em sua concepção o Blockchain já seguiu os princípios de uma Organização Próspera, sendo organizado de forma totalmente distribuída, sem hierarquia e centro decisor. Foi criado por um ou mais iniciadores (a verdadeira identidade de seu criador Satoshi Nakamoto é desconhecida) que deixaram seus papéis centrais assim que o sistema começou a rodar, passando a atuar como apenas mais um nó integrante da malha.

 

O Blockchain empodera seus usuários, dando-lhes o controle total sobre suas informações e transações, evitando intermediários e instâncias de confiança. É inclusivo, não fazendo distinção sobre seus usuários ou sobre as transações registradas. Operar no Blockchain é uma decisão individual e sua rede é constituída por nós independentes e autônomos e é a interação entre os nós que constitui a maior confiabilidade do sistema.

 

Por meio dos Smart Contracts (Contratos Inteligentes), o Blockchain distribui os recursos das transações sem a necessidade de intermediários, decisões consensuais ou a criação de fundos e patrimônio. Os Smart Contratcs garantem a fluidez do sistema e a distribuição contínua5.

 

O sistema é mantido inicialmente por recompensas deflacionárias, criadas a fim de prover o incentivo necessário para os primeiros operadores do sistema (inciadores) por meio de uma Prova-de-Trabalho (Proof-of-work) e caminha para que a remuneração seja um percentual de cada transação, integrando todos como participantes de uma mesma organização. Os iniciadores não são “Sócios” proprietários do Blockchain, não compõem grupo decisor, não tem cargos ou posições diferentes dos outro nós da rede, atuam como prestadores de serviço, servindo a sociedade com seu trabalho e recebendo por isso.

 

 

O papel da Criptomoedas

As Criptomoedas ou Moedas Digitais como são mais conhecidas, ao contrário das moedas fiduciárias em circulação, tem seu controle distribuído, relacionado ao uso do Blockchain e são produzidas por um sistema próprio, a uma razão definida na criação do sistema e disponível publicamente6.

 

O papel de uma Criptomoeda, conforme o teorema de Mises, não se restringe a apenas como veículo de troca, pois assim estaria condenada ao fracasso em seu nascimento, uma vez que não há mercado formado para sua circulação. Uma Criptomoeda precisa também de valor de uso, no caso, de valor subjetivo, como o retorno esperado sobre o investimento feito (capitais financeiros, de trabalho ou social)7.

 

A capacidade de rastreamento de uma Criptomoeda permite a verificação permanente de sua propriedade bem como a identificação da carteira que a custodia, mantendo-se a privacidade de seu titular. Isso significa que Smart Contracts podem ser criados para distribuir os recursos recebidos pela Organização Próspera proporcionalmente à quantidade de uma determinada Criptomoeda custodiada em uma carteira digital, conferindo à esta Criptomoeda o papel de participação num empreendimento, como uma ação ou título mobiliário.

 

Os termos do contrato negociado no início da Organização Próspera substituem contratos sociais, suas alterações e custos burocráticos por uma estrutura ágil, fluída e inclusiva, onde a participação no negócio é transmitida numa simples transação entre os nós interessados, com a preservação dos direitos dos envolvidos, ou na emissão de novas Criptomoedas de acordo com o critério definido arbitrariamente pelos iniciadores em sua criação. Seja ele uma prova de trabalho digital (processamento de dados), uma prova de trabalho analógico (realização de uma tarefa ou atividade) ou prova de participação (a posse de uma emissão anterior da mesma Criptomoeda).

 

Numa Organização Próspera, as Criptomoedas e os Smart Contracts garantem a distribuição automática, eliminam a necessidade do centro gestor e decisor, dos custos de administração de contas a pagar e receber e principalmente, não retém fundos, formam patrimônios ou exigem decisões consensuais.

 

 

 

Referências:

 

 1 COASE, Ronald H., The Nature of The firm, Economica, New Series, vol. 4 No. 16 (Nov. 1937) pp. 386 - 405.

 

2 RIFKIN, Jeremy, the Zero Marginal Cost Society: the internet of things, the collaborative commons, and the eclipse of capitalism, Palgrave Macmillan Trade: July, 2015.

 

3 TAPSCOTT, Don, TAPSCOTT, Alex, Blockchain Revolution, how the technology behind Bitcoin is changing Money, business and the world, Penguin: May 2016.

 

4 Idem nota de rodapé no. 3.

 

5 SWAN, Melanie, Blockchain, blueprint for a new economy, O´Reilly, feb. 2015.

 

6 ULRICH, Fernando, Aspectos Econômicos do Bitcoin, em A Revolução das Moedas Digitais: Bitcoins e Altcoins, aspectos jurídicos, sociológicos, econômicos e da ciência da computação, Revoar: São Paulo, 2016 pgs 78 - 105.

 

7 Idem nota anterior.